Biodiversidade: uma história com final feliz
O que é que acontece quando uma espécie que estava extinta é reintroduzida no seu habitat?Um dos casos mais bem sucedidos de reintroduções é o do Lobo no Parque de Yellowstone nos Estados Unidos, onde havia sido caçado até à extinção no início do sec XX. É uma história fascinante sobre o funcionamento dos ecossistemas.
Em 1995, 14 Lobos provenientes do Canadá foram introduzidos em Yellowstone. No ano seguinte chegaram mais 17. Os biólogos responsáveis por esta reintrodução esperavam que a mistura de espécies se tornasse mais harmoniosa, esperavam, por exemplo que a população de Veados, demasiado numerosa desde que o seu principal predador se extinguiu, se reduzisse um pouco. No entanto, produziram-se muitos mais resultados que não estavam no programa...
Como previsto, as recém chegadas alcateias começaram a alimentar-se de Veados, a sua presa natural mais abundante no parque, o que teve como efeito não só a redução no seu número, mas também uma alteração no seu comportamento. Antes da chegada dos Lobos, os Veados preferiam pastar junto aos ribeiros pelo meio de matas de Choupos e Salgueiros. No entanto, estas também se tornaram as zonas preferenciais dos Lobos, empurrando os Veados para os prados onde conseguiam detectar as alcateias a maior distância, sentindo-se mais protegidos. Esta alteração comportamental teve como efeito um rejuvenescimento das matas ribeirinhas, cujas plantas jovens eram quase invariavelmente ingeridas pelos Veados.
O rejuvenescimento destas matas permitiu, por sua vez, a recuperação das populações de pássaros que lá habitavam, e que se encontravam em declíneo devido ao envelhecimento do seu habitat.
O afastamento dos Veados das galerias ripícolas causou o regresso de outro habitante desaparecido desta zona do parque desde os anos 50: o Castor. Os Castores necessitam de salgueiros jovens para construir os seus diques e para se alimentarem. Os novos diques criaram pequenos charcos onde cresce vegetação que é essencial para os Ursos-pardos quando acordam da hibernação. Estes charcos juntamente com a maior riqueza da vegetação ribeirinha ajudaram a proteger o próprio leito do rio, desacelerando o seu curso, reduzindo a erosão das margens e possibilitando um maior crescimento de certos peixes como as trutas.
Os Lobos parecem também ter criado um novo mercado de carne a céu aberto em Yellowstone. Muitas vezes, ao abaterem grandes Veados, depois de saciados deixam restos que são aproveitados por outras espécies, especialmente no Inverno, quando a comida escasseia. A lista de comensais destas carcaças é longa: Ursos-pardos, Coiotes, Raposas, Águias-reais, Águias-calvas, Corvos...
Os Lobos demonstraram ser grandes restauradores do meio, corrigindo problemas, que para o Homem seriam extremamente difíceis e dispendiosos. Mas mais importante que isso, os Lobos trouxeram uma lição com eles. Eles ilustram o enorme papel representado pelos predadores de topo no equilíbrio de um ecossistema, sublinhando o que falta em todos os locais onde estes predadores já foram eliminados.
Esperemos que as acções do Lobo em Yellowstone tenham eco por todo o mundo.
Filipe
Para saber mais: Wilmers et al 2003; Laundré et al 2001; Ripple & Larsen 2000; Ripple et al 2001.
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