Predadores batoteiros: uma história de gatos e pássaros
O gato doméstico é um descendente directo do Gato-bravo, uma espécie selvagem que ainda hoje pode ser observada em várias regiões de Portugal, apesar de se encontrar ameaçado (estatuto Vulnerável segundo o Livro vermelho dos vertebrados de Portugal).Deste seu antepassado herdou, não só o aspecto, mas muitos comportamentos: gosta de andar de noite, é extremamente ágil, é um trepador exímio e adora caçar. Quem tem gatos sabe que, desde pequeninos, o seu divertimento favorito é o jogo do "gato e do rato", em que o rato pode ser qualquer coisa, desde um novelo de lã a uma bola, ou mesmo um rato...
O problema começa quando deixamos o "Pantufa" sair para o quintal. O Pantufa vai fazer o que os gatos fazem: vai caçar. E não importa quão bem alimentado está, os gatos vão sempre querer praticar as suas aptidões.
O Pantufa, além do mais, vai fazer batota no jogo do gato e do rato porque beneficia de uma enorme vantagem que os seus primos selvagens não têm. Tem uma deliciosa tigela de whiskas à sua espera quando chega a casa. A sua fonte de alimento é constante, por isso a sua população não é alterada quando a população das suas presas diminui. Ou seja, não está sujeito à auto-regulação dos ecossistemas, podendo dizimar populações inteiras sem que isso o afecte.
São muitos os estudos que demonstram quão devastadores são os efeitos dos gatos domésticos nas populações de aves (e não só) das zonas suburbanas e rurais, e mesmo nas áreas naturais que lhes estão adjacentes. Alguns gatos podem matar qualquer coisa como 1000 animais num ano. Um trabalho recente, realizado em Inglaterra, estimou que os gatos domésticos matam, por ano, pelo menos 57 milhões de mamíferos, 27 milhões de aves e 5 milhões de répteis e anfíbios.
A predação por gatos domésticos é a segunda maior causa de extinção de espécies de aves (a seguir à destruição de habitat). Uma espécie de carriça endémica de uma ilha oceânica foi caçada até à extinção por um único gato.
A batota no jogo do gato e do rato tem ainda outra vítima, para além das presas: os outros gatos - os selvagens. E quem diz gatos-bravos, diz fuinhas, genetas ou doninhas. Ou seja, os predadores naturais das presas que estão a ser dizimadas e cujas populações correm o risco de ser afectadas pela falta de alimento.
O que devemos fazer:
Em primeiro lugar, manter os gatos em casa. Além de evitarmos que o gato se torne num predador, evitamos reproduções indesejadas e possíveis doenças ou acidentes que o nosso gato possa vir a sofrer. Depois, não devemos abandonar os gatos que não queremos, além de ser desumano, podemos estar a criar um grande problema a outras espécies.
Por fim, não devemos nunca alimentar gatos vadios. Estamos a contribuir para a tal batota no jogo do gato e do rato. É certo que os gatos abandonados nos dão pena, mas se calhar também devemos pensar nos melros, nos pintassilgos e nas toutinegras.
Filipe
Para saber mais:
Crooks & Soulé 1999
Lepkzic et al 2004
Woods et al 2003
Coleman et al 1994
Barratt 1997
Etiquetas: animais de estimacao, biodiversidade
