
África é um continente de extremos.
Em quase todas as áreas em que pensemos encontramos exemplos das disparidades que existem em África (desde o clima às condições de vida da população) e se ouvirmos qualquer (bom) noticiário com atenção, certamente que descobriremos novos exemplos.
Nas últimas semanas chegaram-nos de África boas e más notícias para a conservação da biodiversidade, curiosamente vindas do mesmo país, a República Democrática do Congo.
Ao mesmo tempo que um grupo de cientistas da
Wildlife Conservation Society apresentava os resultados fantásticos de três meses de trabalho de campo na inexplorada floresta de Misotshi-Kabogo, elementos da
Conservation International denunciavam a matança de 4 gorilas da montanha no Parque Nacional de Virunga.
Ao trabalharem numa zona anteriormente inacessível devido à instabilidade regional, a equipa da WCS conseguiu descobrir 6 espécies novas para a ciência (uma nova espécie de rato, duas de musaranhos, um morcego novo e duas novas espécies de rãs). A floresta também terá novas espécies de plantas, mas a sua catalogação e descrição demora mais tempo.
A realidade no Parque de Virunga é bem diferente. Nas últimas décadas o parque tem servido de refúgio a vagas sucessivas de refugiados que fogem das inúmeras guerras da região e atrás deles têm chegado forças militares (sobretudo rebeldes) que se têm instalado no parque. Além disso, devido à riqueza do seu subsolo, o parque sofre pressões de vários sectores económicos. Nos últimos sete meses, sete gorilas foram assassinados no parque. No último incidente quatro gorilas da montanha foram mortos de uma só vez, um macho e três fémeas (uma delas grávida). Sabendo que existem apenas 700 indivíduos desta espécie, em termos estatísticos, a perda destes 5 indivíduos é equivalente ao desaparecimento de cerca de 47 milhões de humanos (pouco mais que a população de Espanha).
Estas são só duas histórias de apenas um país de um imenso continente. Conseguem imaginar o quanto ganharia a Humanidade com uma África estável e em Paz? Quantas espécies estão à espera de ser descobertas? Quantos espécies necessitam de ser conservadas?
Bem sei que África parece distante e que a maioria das nossas instituições de ambiente (ONGA, ICNB, empresas, etc.) não têm por hábito intervir em África. No entanto deixo duas sugestões para quem queira ajudar. Em primeiro lugar devemos procurar estar mais informados sobre as realidades africanas (para podermos apontar bons exemplos e denunciar falhas graves). Em segundo lugar, se as instituições de Ambiente portuguesas pouco fazem por África, desafiem-nas para melhorar o seu desempenho ou então apoiem alguma das diversas ONGD (organizações de desenvolvimento e não de caridade) que trabalham com África (contactem a
Plataforma Portuguesa das ONGD para saber mais).
P.S. Para terminar com uma nota de esperança, a cria de uma gorilas mortas, um bébé de cinco meses chamado Ndeze, foi salva do massacre pelo seu irmão mais velho e neste momente está a ser tratada num centro de reabilitação. Sei que não devemos comparar atitudes humanas com comportamento animal, mas neste caso dá-me vontade de perguntar quem são as bestas nesta história.
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