Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Espécie do mês: Flamingo

Flamingo, Phoenicopterus roseusFlamingo Phoenicopterus roseus (Palas, 1811)

Espanhol: Flamenco
Inglês: Greater flamingo

Francês: Flamant rose

Classe: Aves
Ordem: Phoenicopteriformes
Família: Phoencopteridae

Distribuição mundial: Encontra-se no Norte, Sul e Este de África, Sudoeste da Ásia e sul da Europa. No Paleárctico ocidental nidifica em Espanha, França, Chipre, Tunísia e Sardenha, ocorrendo em muitos outros países. Realiza movimentos dispersivos erráticos que ainda não são totalmente conhecidos.

Distribuição em Portugal: Em Portugal pode ser encontrado sobretudo na faixa litoral a Sul da Ria de Aveiro. Os núcleos mais importantes são o estuário do Tejo, o estuário do Sado, a Ria Formosa e Castro Marim. Pode também ser observado em açudes, barragens, lagoas ou em zonas de arrozal no interior do país.

Tipo de ocorrência em Portugal: Invernante

Estatuto de conservação:

No mundo: Pouco preocupante
Em Portugal: Regionalmente extinto como reprodutor e Vulnerável como invernante

Tendência populacional: A população invernante desta espécie aumentou nas últimas décadas.

Descrição: O Flamingo é uma ave inconfundível. A sua plumagem é cor-de-rosa, as pernas são altas e o pescoço comprido. Os juvenis são acinzentados.

Habitat: Zonas costeiras, lagoas abertas e pouco profundas, lagos e estuários lodosos, salinas. Requer grandes espaços abertos e tranquilos.

Alimentação: Crustáceos minúsculos que filtra com o seu bico altamente especializado. Consome também pequenos insectos, moluscos e anelídeos, bem como algas de pequenas dimensões.

Reprodução: Nidifica em grandes colónias onde constrói um ninho em forma de monte de lama. É monogâmico e a sua postura é constituída por apenas um ovo de cor branca.

Comportamento: Normalmente é observado em grandes bandos.

Factores de ameaça: Abandono e transformação das salinas, destruição de sapais, poluição por herbicidas e pesticidas. Sendo uma espécie pouco tolerante à presença humana é afectada pela expansão turística e urbanística.

Onde observar: Um dos melhores locais para observar Flamingos é o estuário do Tejo. Os Flamingos podem ser facilmente avistados da Ponte Vasco da Gama sobre as salinas próximas a Alcochete.

Curiosidades: A cor rosada do Flamingo provém de pigmentos (carotenos) obtidos através dos crustáceos que compõem a sua alimentação. Quanto mais bem alimentado e saudável estiver um Flamingo mais vibrante será a sua cor.

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Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Biodiversidade e medicina

Investigadores da Universidade de Washington (Oh et al 2008) isolaram um composto existente numa planta e criaram um medicamento com grande poder curativo de vários tipos de cancro. A grande vantagem da utilização deste medicamento é que não tem os efeitos secundários negativos da quimioterapia convencional.
A planta (Artemisia annua) é há muito usada pela medicina tradicional chinesa no tratamento de constipações e gripes e desde os anos 1970 que também lhe são reconhecidas propriedades antimaláricas.

Quantas plantas existirão com propriedades semelhantes ou ainda superiores que nunca foram investigadas, ou que nem sequer foram descobertas pelos cientistas?
Esta pergunta torna ainda mais assustador o ritmo a que avança a desflorestação, sobretudo nas regiões tropicais, precisamente onde ainda existem mais espécies por estudar.
Se não existissem mais razões para lutarmos todos os dias para preservar a biodiversidade esta seria suficiente.

Filipe

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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Tuataras condenadas a vida sem sexo e extinção

As Tuataras são um dos quatro grandes grupos que constituem os répteis, juntamente com as tartarugas, os crocodilos e os escamosos (que incluem as cobras e os lagartos). Estes animais foram contemporâneos dos dinossauros e em tempos habitaram uma grande área do globo. Hoje apenas existem duas espécies de Tuataras em cerca de 30 pequenas ilhas pertencentes à Nova Zelândia.
As Tuataras são animais algo bizarros. À primeira vista são parecidas com um lagarto ou com uma iguana, mas algumas características separam-nos destes: não possuem ouvido externo, nem pénis, mas por outro lado têm um olho especial no meio da testa que lhes serve para terem uma melhor percepção da temperatura ambiente.
Ao contrário do que acontece nos mamíferos ou nas aves, o sexo dos indivíduos nestes répteis não é determinado por cromossomas, mas sim pela temperatura ambiente, mais concretamente pela temperatura do solo junto aos ovos. Quando está mais fresquinho nascem fêmeas, quando faz calor nascem machos.
De certeza que já estão a ver qual é o problema. Com o aquecimento global vão começar a nascer cada vez menos Tuataras meninas, até que, segundo um modelo recentemente produzido, em 2085 já só haverá Tuataras meninos. Como estes animais só vivem em pequenas ilhas oceânicas, não têm para onde fugir em busca de climas mais frescos.
Esta é mais uma crónica de uma extinção anunciada.

Filipe

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Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Livro Vermelho e Estatutos de Conservação

Muitas vezes aqui no blogue falamos de estatutos de conservação das espécies. Esse estatuto corresponde à classificação numa escala de ameaça que permite estimar a probablidade de extinção de cada espécie num determinado período, tendo em conta as condições passada, actual e futura. Entra em conta com a influência humana, com as características biológicas da espécie e ainda com a interacção entre ambas.
A instituição que criou o sistema de avaliação do grau de ameaça das espécies, bem como as recomendações para a sua aplicação foi a International Union for Conservation of Nature (IUCN).
Este sistema é composto por 11 categorias.

Extinto: Uma espécie para a qual não existe dúvida razoável de que o último indivíduo morreu.

Extinto na Natureza: Quando a espécie apenas sobrevive em cativeiro (ou cultivo no caso de ser uma planta) ou como uma população naturalizada fora da sua área de distribuição original.

Regionalmente Extinto: Uma espécie está regionalmente extinta quando não restam dúvidas de que o último indivíduo potencialmente capaz de se reproduzir no interior da região morreu desapareceu.

Criticamente em Perigo, Em Perigo e Vulnerável: Estes três estatutos traduzem um grau de ameaça atribuido com base em cinco critérios quantitativos - Redução da população; diminuição da área distribuição geográfica ou fragmentação desta; efectivo populacional reduzido ou fragmentado; população com uma distribuição muito restrita; análise quatitativa do risco de extinção.

Quase Ameaçado: aplica-se a espécies que podem estar perto dos estatutos acima se persistirem ou se agravarem os factores de ameaça.

Pouco Preocupante: Espécies que não se classificam como ameaçados, nem se prevê que num futuro próximo venham a estar ameaçadas. Corresponde a espécies abundantes com distribuição ampla.

Informação Insuficiente: Espécies cuja informação disponível não é adequada para avaliar o risco de extinção.

Não Aplicável: Para espécies que não reunem as condições necessárias para ser avaliado a nível regional (por exemplo, espécies introduzidas, como o Periquito-rabijunco em Portugal).

Não Avaliado: Quando a espécie não foi avaliada pelos critérios anteriores (por exemplo, uma espécie cuja ocorrência numa dada região é ocasional, como uma ave migradora americana que se perde e vai parar aos Açores).

Para uma explicação exaustíva destas categorias e dos critérios com que são atribuidas clique aqui.

Este sistema pode e deve ser aplicado tanto a um nível global (IUCN Red List of Threatened Species) como a um nível regional. Em Portugal foi publicado pelo ICNB o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal que atribui estatutos de conservação a todas as espécies que ocorrem no nosso território.

Filipe

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Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Tubarão-branco no Mediterrâneo

Uma pergunta levantada pelo Miguel no post de segunda-feira aguçou-me a curiosidade e levou-me a fazer uma pequena pesquisa. O Miguel perguntava pelo estatuto do Tubarão-branco no Mediterrâneo.
O Tubarão-branco (Carcharodon carcharias) é uma das espécies mais famosas de tubarão do mundo, primeiro porque é o maior peixe predador (o Tubarão-baleia é maior, mas é filtrador) e sobretudo porque é o protagonista dum filme de Steven Spielberg. Este protagonismo não o safa de ser uma espécie ameaçada, tal como a maioria dos seus parentes. Pelo contrário, a notoriedade deste tubarão como monstro de Hollywood inflacionou o valor comercial de partes do seu corpo, gerando um trafico ilícito que é difícil de quantificar e controlar. Outras ameaças que estão identificadas para esta espécie são a redução do número das suas presas (como consequência da pesca excessiva), a pesca acidental, a degradação do habitat e, paradoxalmente, o ecoturismo. Muitas vezes as pessoas que gostam dos animais e que os querem ver de perto não entendem que a perturbação excessiva altera o seu comportamento, afugenta as suas presas e contribui para a degradação do habitat.
Além do mais, o Tubarão-branco tem características biológicas que não ajudam quando uma espécie está ameaçada: ocorre em baixas densidades, tem uma elevada idade de maturação sexual e uma baixa taxa de fecundidade.
Assim, o seu estatuto no livro vermelho da UICN é "vulnerável", e só não tem um estatuto de ameaça mais sério porque é uma espécie com uma área de distribuição muito ampla. Existe em todos os mares frios, temperados e tropicais, sendo aparentemente mais abundante nas costas da África do Sul, Austrália e Califórnia. É uma espécie que realiza grandes movimentos migratórios, percorrendo distâncias enormes.
Chegamos ao Mediterrâneo. Sim, o Tubarão-branco não só ainda aparece no Mediterrâneo (juntamente com mais 46 espécies de tubarões) como se reproduz, provavelmente em números relativamente baixos. A espécie está protegida pela legislação europeia, constando de diversas directivas que visam a protecção de espécies ameaçadas.

Filipe

Para saber mais:

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Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Declínio dos tubarões do Mediterrâneo

Não faltam evidências de que os peixes predadores de grandes dimensões estão em declínio em todos os oceanos, mas há uma grande escassez de dados concretos devida às enormes dificuldades que existem no estudo destas espécies. Recentemente foi publicado na revista "Conservation Biology" um artigo (Ferretti et al 2008) que compila informação sobre a abundância de diversas espécies de tubarões no Mediterrâneo, incluindo dados históricos desde o início do século XIX. Das cinco espécies, sobre as quais existiam dados suficientes para realizar a análise (Tubarão-martelo, Tintureira, Tubarão-Anequim, Tubarão-sardo e Tubarão-raposo) chegou-se à conclusão que os seus efectivos populacionais decresceram entre 96 e 99,99% nos últimos 200 anos. De acordo com os critérios adoptados pela UICN, estas espécies deviam ser consideradas como "criticamente ameaçadas", o que não acontecia até agora devido à falta de dados quantitativos sobre as suas populações.
Desde há muito tempo que a pesca no Mediterrâneo tem sido intensa, sendo os tubarões, em geral, considerados como tendo pouco valor comercial. A sua captura foi sobretudo acidental (mas em grande quantidade) na pesca de outras espécies, como o atum. É provável que o declínio destas espécies ocorra desde há muitos anos sem se ter dado por isso. No entanto, com o aumento da procura de tubarão pelo mercado asiático (para a famosa sopa de barbatana de tubarão), os tubarões têm sido alvo de uma perseguição directa que veio acelerar o decréscimo de populações já de si debilitadas.
Neste momento o que preocupa os investigadores não é apenas o desaparecimento dos tubarões só por si, mas os potenciais efeitos adversos para todo o ecossistema que ocorrerão com o decréscimo dos predadores de topo (ver post sobre este tema).

Filipe

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Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

A Freira do Bugio

A Freira do Bugio, também conhecida por Gon-gon, é uma ave marinha parente distante dos albatrozes e parente próxima das pardelas. Ocorre unicamente nos arquipélagos de Cabo Verde e da Madeira, mas concretamente na ilha do Bugio, situada nas Desertas.
A Freira do Bugio é uma ave considerada vulnerável em Portugal, já que a sua população foi estimada em cerca de 200 casais reprodutores, que nidificam exclusivamente em dois planaltos de uma única ilha. Com este cenário, é normal que esteja a ser alvo de uma atenção especial em termos de conservação e estudo. A SPEA lançou assim o projecto SOS Freira do Bugio. Para já um dos resultados obtidos é que a Freira do Bugio provavelmente pertence a uma espécie diferente das freiras que se encontram em Cabo Verde, pelo menos é o que parecem demonstrar as primeiras análises genéticas.
Se estes dados se confirmarem a Freira do Bugio passará a ser uma das espécies mais raras do mundo, acrescendo ainda mais a nossa responsabilidade na sua conservação.

Filipe

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Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Nem a gregos nem a troianos

Há um par de semanas o Urso-polar foi classificado como espécie "ameaçada" pelo Departamento do Interior dos EUA. Agora esta instituição está a ser processada por um bloco de associações ambientalistas que afirmam que a espécie devia ter sido classificada "em perigo de extinção" porque só assim podiam ser dados passos para combater os factores que mais ameaçam a sobrevivência dos ursos (especialmente o aquecimento global). Com a classificação actual não é possível implementar restrições a novas perfurações para gás e petróleo.
Por outro lado, o governador do estado do Alasca também vai processar o governo americano, mas pela razão oposta: este governador acredita que o Urso-polar possui populações perfeitamente saudáveis e que não há modelos climáticos credíveis que demonstrem que existem alterações climáticas causadas pelo Homem.


Filipe

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Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

A biodiversidade à porta de casa

Os documentários que vemos na televisão levam-nos a pensar que para podermos observar animais atractivos temos que nos deslocar a destinos exóticos como a savana africana, a Amazónia ou Madagáscar. No fundo suspeitamos que se formos aos Parques Naturais mais remotos de Portugal como o Gerês ou Montesinho, talvez possamos encontrar alguma coisa...

Com a actividade "A biodiversidade à porta de casa" queremos demonstrar que existe uma enorme biodiversidade ao nosso redor, independentemente do sítio onde moramos. Mesmo para quem vive numa grande cidade como Lisboa, basta percorrer uma distância mínima para observar com relativa facilidade mais de uma centena de espécies de Aves, como Flamingos, Colhereiros ou Águias-calçadas, dezenas de espécies de Mamíferos como os Saca-rabos ou as Raposas e várias espécies de Répteis e Anfíbios. Venha descobrir a Biodiversidade à porta de casa!

Próximo passeio: 1 de Junho

Informações: natureza@terramater.pt / 21 0190776 ou clique aqui

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Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Engenheiros de ecossistemas

São vários os tipos de relação ecológica entre as espécies. A predação (quando um ser vivo mata outro para se alimentar), o parasitismo (quando um ser vivo subsiste à custa de outro, que saí prejudicado da interacção), a simbiose (quando ambos os seres vivos beneficiam com a interacção) e o comensalismo (quando um ser vivo beneficia e outro é indiferente à interacção).
Existe, no entanto, outro tipo de interacção positiva entre espécies: a facilitação ecológica. Neste caso, as diferentes espécies não interagem directamente, uma delas intervém no ecossistema de um modo que beneficia a outra.
Num trabalho de investigação publicado recentemente (Nummi & Hahtola 2008) concluiu-se que as represas construídas pelos castores criam pequenos lagos nos rios que são habitados pelas marrequinhas (espécie de pato). Nas florestas boreais, onde decorreu o estudo, as marrequinhas não encontram habitat favorável com facilidade, estando a sua sobrevivência dependente da engenharia de ecossistemas realizada pelos castores.
Quantos mais fios conseguimos identificar na intrincada teia que constitui um ecossistema, mais nos apercebemos da sua força e ao mesmo tempo da sua fragilidade.

Filipe

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Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Chitas do mar alto

É sabido que muitas espécies de baleias mergulham a profundidades superiores a 1.000 m, e desde sempre se assumiu que estes animais, nestas circunstâncias, nadam a velocidades moderadas com vista a optimizar o consumo de oxigénio e maximizar o tempo de procura de alimento a grandes profundidades.
Um grupo de investigadores sediados na Universidade de Tenerife, nas ilhas Canárias, estudou o movimento de Baleias-piloto de barbatana fina (Globicephala macrorhynchus) com recurso a localização por satélite chegando à conclusão que estas baleias realizam sprints de curta duração (19 a 79 seg) nos seus mergulhos a grande profundidade. Este tipo de comportamento, que era desconhecido em mamíferos marinhos, é mais típico de alguns predadores terrestres como a Chita. As baleias-piloto provavelmente desenvolveram esta estratégia para capturar grandes presas rápidas, com elevado valor alimentar, como as lulas gigantes.

Filipe

Aguilar et al. (2008) Journal of Animal Ecology

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Domingo, 4 de Maio de 2008

O unicornio dos mares está em perigo

O Urso-polar tem sido um dos emblemas da Natureza a desaparecer no Árctico. Com a destruição da camada de gelo o urso está a perder o seu habitat, as suas populações estão cada vez mais fragmentadas e a extinção na Natureza parece cada vez mais inevitável se o processo de aquecimento global não for revertido. O Urso-polar é o simbolo carismático perfeito para nos alertar para os perigos das alterações climáticas: é uma espécie muito bonita e fotogénica, é um dos maiores atractivos dos zoos que possuem alguns exemplares, dá uns peluches muito giros e a imagem dum urso sozinho num pequeno bloco de gelo a flutuar na vastidão do oceano vale mais do que mil artigos científicos para cativar a opinião pública. Não nos podemos é esquecer que o Urso-polar é só uma das muitas espécies que estão a desaparecer no Árctico. Mesmo dentro dos mamíferos marinhos existe pelo menos uma espécie que parece estar ainda em piores condições que o Urso-polar - o Narval.
O Narval é um animal invulgar, lembra um golfinho ou uma pequena baleia com um enorme chifre (que na realidade é um dente) que pode chegar a medir três metros e pesar 10 kg (!!!). Este unicornio dos mares foi considerado o mamífero marinho do Árctico mais sensível às alterações climáticas. Segundo um estudo publicado recentemente na revista Ecological Applications, o Urso-polar, a Foca-de-capuz, a Morsa e a Baleia-franca-boreal completam o top 5 das espécies árcticas cuja sobrevivência está mais ameaçada.

Filipe

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Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

A queda dos abutres

O mais recente recenseamento das populações de abutres na Índia revelou dados assustadores. Os números de Grifo de Bengala Gyps bengalensis caíram 99,9% nos últimos 15 anos (entre 1992 e 2007), continuando a reduzir-se a uma taxa de 40% por ano. As outras espécies ameaçadas de abutres (Gyps indicus e Gyps tenuirostris) tiveram uma queda de perto de 97 % no mesmo período.
Os autores deste estudo culpam o diclofenac, um anti-inflamatório (é a substância activa, por exemplo, do Voltaren) que é administrado ao gado, de cujas carcaças os abutres se alimentam. Um dos efeitos secundários deste produto, quando tomado em doses excessivas, é a insuficiência renal que é a causa de morte destas aves.
Como acontece sempre que um elo da cadeia da biodiversidade é eliminado, começam a aparecer efeitos nos outros elementos do ecossistema. Neste caso, um dos efeitos mais graves que têm vindo a ser descoberto é o aumento dos casos de raiva em cães vadios e ratazanas, que se alimentam das inúmeras carcaças que agora são deixadas a apodrecer. Isto é especialmente preocupante, em termos de saúde pública, num país como a Índia, que tem uma elevadíssima densidade populacional e em que uma parte significativa da população vive abaixo do limiar de pobreza em condições de higiene muito precárias.
As únicas soluções para este caso são banir o uso de diclofenac no gado e realizar um programa de reprodução em cativeiro.

Para ler o artigo clique aqui
Para saber mais clique aqui

Filipe

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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Voluntariado pelas aves comuns

Grande parte dos projectos de investigação dedicados à preservação da biodiversidade são dirigidos para espécies raras, cuja sobrevivência está ameaçada. Em Portugal, são exemplos disso os projectos Life dedicados ao Lince Ibérico, ao Priolo ou à Águia de Bonelli, todas espécies de ocorrência rara (ou muito rara), com uma área de distribuição limitada e cujas populações sofreram declínios acentuados num passado recente.
Ninguém discorda que todos os esforços que possam ser realizados para recuperar estas e outras espécies são essenciais. Contudo, não podemos ignorar outras espécies: as comuns. Aquelas pelas quais passamos todos os dias sem dar grande importância, e que só damos pela falta quando já lá não estão. Isto aconteceu um pouco por toda a Europa com a intensificação da agricultura que causou o declínio acentuado de várias espécies de aves das mais comuns dos campos agrícolas e das pastagens.
Com o objectivo de monitorizar as populações de todas as espécies de aves comuns nidificantes em Portugal e os seus habitats, a SPEA lançou o Censo de Aves Comuns (CAC). Este programa, exclusivamente realizado por voluntários, consiste na contagem das aves ao longo dos anos sempre nos mesmos locais, o que permite a obtenção de dados sobre as variações populacionais de um vasto conjunto de espécies nidificantes numa grande variedade de habitats. A informação assim obtida é fundamental para detectar atempadamente declínios nas populações de aves (que funcionam como bons indicadores para a restante biodiversidade), podendo-se estudar as suas causas e alterar políticas, de tal forma que o Índice de Aves Comuns, fornecido pelo CAC, está incluído na Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável 2005-2015, como um dos indicadores a ter em conta.
A importância deste projecto transcende o âmbito nacional, uma vez que os seus resultados são integrados no esquema Pan-europeu de Monitorização de Aves Comuns, coordenado pela Birdlife International e pelo European Bird Census Council.

Filipe

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Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Preservativos made in Amazónia

A Amazónia, onde a desflorestação avança a um ritmo assustador, tanto para exploração da madeira como para aumentar as áreas de pasto para o gado, é uma das regiões do globo onde a biodiversidade está mais ameaçada. É, por isso, urgente encontrar soluções que forneçam rendimento às populações locais, com actividades em que a floresta não seja danificada. O governo brasileiro avançou com uma boa ideia: a primeira fábrica de preservativos governamental do mundo (ver notícia). O látex de que vão ser feitos os preservativos será extraído de árvores-da-borracha da Reserva Chico Mendes (um conservacionista brasileiro assassinado em 1988 a mando de rancheiros), estando prevista a produção de 100 milhões de preservativos por ano.
Este negócio vai gerar rendimento para as populações locais (prevê-se que mais de 550 famílias irão receber um total de 2,2 milhões de reais anualmente) e vai reduzir a necessidade de abater árvores.
Além do mais, este projecto irá reduzir a dependência do Brasil em preservativos importados, que são distribuídos gratuitamente como parte do programa nacional de combate à SIDA (o governo brasileiro é o maior comprador mundial de preservativos).

Quando a biodiversidade está ameaçada por uma exploração excessiva dos recursos, a melhor solução para a preservar passa por oferecer uma alternativa económica viável baseada no uso sustentável dos recursos.
Fazem falta ideias inovadoras como esta, tanto por parte dos governos como dos privados, que rentabilizem os recursos existentes de um modo que possa ser compatível com a conservação dos espaços naturais.

Filipe

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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

30.000 espécies na Enciclopédia da Vida

Amanhã é oficialmente lançado o primeiro rascunho da EOL - Encyclopedia of Life, uma ferramenta on-line com informação detalhada sobre cada uma das 1.800.000 milhões de espécies que habitam o planeta.
Para já, esta primeira versão de teste da Enciclopédia tem informação sobre 30.000 espécies (apesar de apenas 25 espécies terem fichas completas e detalhadas). O objectivo desta versão inicial é apenas testar o funcionamento da ferramenta (colocar informação completa sobre todas as espécies deverá demorar 10 anos).
Fica aqui o apelo de James Edwards, director do projecto, para que todos participem e apoiem o projecto visitando o site e fazendo sugestões, críticas e comentários.

Para visitar o site clique aqui.

José Luís

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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Aves marinhas e aquecimento global

O Urso-polar tem sido o símbolo dos efeitos das alterações climáticas na biodiversidade já que diariamente vê o seu habitat derreter debaixo dos pés.
A grande vantagem de um símbolo é termos algo com que nos identificar e que nos ajuda a compreender o problema, desde que não pensemos que esta é a única espécie afectada, ou que os efeitos do aquecimento global vão apenas prejudicar a espécie X e a espécie Y. Os efeitos são vastos e atingem todo o ecossistema e por consequência o Homem.
Diariamente leio artigos científicos que, uma a uma, vão acrescentando espécies à lista das que estão já a sofrer os resultados das alterações climáticas. Esta avalanche de informação sublinha a urgência da mudança de comportamentos essencial para revertermos os danos que estamos a causar.
Hoje o artigo que li foi sobre o Alcaide (ou Moleiro-grande, como também é conhecido) Catharacta skua, que é uma ave marinha típica das altas latitudes. Em Portugal, pode ser observado a partir de pontos estratégicos ao longo da costa durante o Inverno. O Alcaide é semelhante em tamanho e no formato a uma gaivota, mas de cor castanha, e é conhecido como um pirata do mar. Além de ser um predador que se alimenta de peixes e pequenas aves, também rouba as presas às gaivotas e às andorinhas-do-mar.
Apesar de ser uma ave marinha, o Alcaide passa muito tempo a tomar banho em charcos com água doce perto dos seus locais de nidificação. Este comportamento tem uma importante função de regulação da temperatura.
As alterações climáticas têm causado a redução dos efectivos de alguns peixes que são uma das principais presas desta espécie durante a época de reprodução, levando a que os Alcaides tenham que passar mais tempo a procurar alimento, ficando com menos tempo para tomar banho e para guardar as crias. Estes dados indicam que para esta ave os efeitos directos das alterações climáticas, por stress térmico, e indirectos, por redução dos stocks de presas, podem ser cumulativos.

Filipe

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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Há coisas fantásticas

A globalização tem vindo a encurtar progressivamente as distâncias. Neste mundo cada vez pequeno até parece que a Natureza já não tem mistérios e tem pouca capacidade de nos surpreender. No entanto o mundo natural ainda tem muitas criaturas e mistérios que apenas agora começamos a desvendar.
Por exemplo, no ano de 2007 foram descritas 178 novas espécies de anfíbios e, em 2008, já foram descritas 36 novas espécies. Todos os anos centenas de espécies novas para a ciência são apresentadas ao mundo. É certo que a maioria só entusiasma os especialistas (nem eu, biólogo, faço uma festa cada vez que se descobriu uma nova espécie de rã verde).
No entanto, de vez em quando lá aparece uma nova espécie que nos surpreende e nos encanta. 2007 trouxe-nos uma nova espécie de leopardo do Bornéu (Neofelis diardi), bela como só um grande felino pode ser. Para já, em 2008, o top é liderado por um animal que, estando longe da beleza clássica, não deixa de ser lindo e único no seu tamanho e cores. Fala-vos da nova espécie musaranho-elefante (Rhynchocyon udzungwensis) descoberta nas florestas de uma zona remota da Tanzânia. É a primeira nova espécie de musaranho-elefante em 126 anos, tem o tamanho de um cão pequeno, pelo laranja e um belíssimo (e enorme) nariz.
Uma das respostas á pergunta "Conservar para quê" é muito simples. De vez em quando, a Natureza tem uma forma única de nos lembrar que ainda não sabemos tudo, de nos fazer sonhar, de nos maravilhar com o padrão de um gato e, logo a seguir, de nos fazer rir com um nariz laranja.
A Natureza é fantástica e estranha. Vamos mantê-la assim.

José Luís

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

A importância dos predadores

Já escrevi neste blog sobre os efeitos (benéficos) da reintrodução de um predador do topo da cadeia alimentar num local onde tinha sido extinto. De facto, o regresso do Lobo ao Parque de Yellowstone veio reequilibrar um ecossistema que andava coxo por falta de uma das suas peças, produzindo alterações que nem os ecologistas mais optimistas podiam suspeitar (ler post).
Logicamente, a situação inversa, de retirar um predador de topo do ecossistema, terá também as suas consequências, neste caso negativas, e muitas vezes igualmente imprevisíveis.
É o que se pensa estar a acontecer com a pesca excessiva de algumas espécies de tubarão. Ao contrário do que se podia pensar, muitas populações de peixes (que são consumidos pelos tubarões) não estão a aumentar os seus efectivos, pelo contrário estão a diminuir, porque uma das primeiras consequências do desaparecimento dos tubarões é o aumento, em número e em atrevimento dos predadores médios. As focas, por exemplo, perdem o medo de ir pescar a zonas anteriormente patrulhadas pelos tubarões, locais que, de certa forma, funcionavam como refúgio para algumas espécies de peixes (apesar de sofrerem algumas perdas para os tubarões).
Os ecossistemas são mais do que a soma dos elementos que os constituem. Não podemos ter a ilusão de que se pode retirar um elemento sem afectar todos os outros.

Filipe

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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

A tradição já não é o que era

Há pouco mais de uma semana largou do Japão uma frota de navios baleeiros, numa expedição com alegados fins científicos, com o objectivo de capturar 1035 baleias. A captura incluirá 50 baleias-de-bossa, uma espécie que esteve à beira da extinção e cuja caça foi banida em 1963. Os responsáveis japoneses sentem a necessidade de conhecer melhor os comportamentos alimentares e de reprodução destes cetáceos. É bem verdade que em mais nenhum país do mundo esta prática científica de chacinar os objectos de estudo é aceitável, e que nenhuma revista científica séria aceita publicar trabalhos em que não sejam respeitadas certas normas respeitantes ao bem-estar animal. Mas o Japão é um país muito tradicionalista e apesar de ser tecnologicamente muito avançado parece preferir utilizar as metodologias da biologia do século XIX. Aliás, quando se pergunta a um responsável japonês pela justificação da caça à baleia a resposta é rápida: "a caça à baleia faz parte da tradição cultural japonesa". A carne de baleia é consumida no Japão há 2.500 anos e as cenas de gloriosas caçadas são ilustradas em toda a arte japonesa. Mas de certeza que há 2.500 anos não se caçavam baleias com os super-arpões de hoje, nem se traziam mais de mil baleias como resultado duma expedição.
Será que a tradição justifica a barbárie? Em muitos países, a existência de escravos era tradição, ou a ausência de direitos das mulheres, ou a mutilação genital feminina, ou a segregação racial.
A única coisa certa em relação à tradição é que um dia vai mudar e de preferência que seja para melhor.

Os Ainu são um povo minoritário do Japão que reside na ilha de Hokaido. Uma das suas tradições é a pesca artesanal do salmão, que está associada a cerimoniais religiosos (os Ainu são animistas). Há alguns anos a pesca tradicional do salmão pelos Ainu foi interdita pelo governo japonês.

Filipe

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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

Predadores batoteiros: uma história de gatos e pássaros

O gato doméstico é um descendente directo do Gato-bravo, uma espécie selvagem que ainda hoje pode ser observada em várias regiões de Portugal, apesar de se encontrar ameaçado (estatuto Vulnerável segundo o Livro vermelho dos vertebrados de Portugal).
Deste seu antepassado herdou, não só o aspecto, mas muitos comportamentos: gosta de andar de noite, é extremamente ágil, é um trepador exímio e adora caçar. Quem tem gatos sabe que, desde pequeninos, o seu divertimento favorito é o jogo do "gato e do rato", em que o rato pode ser qualquer coisa, desde um novelo de lã a uma bola, ou mesmo um rato...

O problema começa quando deixamos o "Pantufa" sair para o quintal. O Pantufa vai fazer o que os gatos fazem: vai caçar. E não importa quão bem alimentado está, os gatos vão sempre querer praticar as suas aptidões.
O Pantufa, além do mais, vai fazer batota no jogo do gato e do rato porque beneficia de uma enorme vantagem que os seus primos selvagens não têm. Tem uma deliciosa tigela de whiskas à sua espera quando chega a casa. A sua fonte de alimento é constante, por isso a sua população não é alterada quando a população das suas presas diminui. Ou seja, não está sujeito à auto-regulação dos ecossistemas, podendo dizimar populações inteiras sem que isso o afecte.

São muitos os estudos que demonstram quão devastadores são os efeitos dos gatos domésticos nas populações de aves (e não só) das zonas suburbanas e rurais, e mesmo nas áreas naturais que lhes estão adjacentes. Alguns gatos podem matar qualquer coisa como 1000 animais num ano. Um trabalho recente, realizado em Inglaterra, estimou que os gatos domésticos matam, por ano, pelo menos 57 milhões de mamíferos, 27 milhões de aves e 5 milhões de répteis e anfíbios.
A predação por gatos domésticos é a segunda maior causa de extinção de espécies de aves (a seguir à destruição de habitat). Uma espécie de carriça endémica de uma ilha oceânica foi caçada até à extinção por um único gato.
A batota no jogo do gato e do rato tem ainda outra vítima, para além das presas: os outros gatos - os selvagens. E quem diz gatos-bravos, diz fuinhas, genetas ou doninhas. Ou seja, os predadores naturais das presas que estão a ser dizimadas e cujas populações correm o risco de ser afectadas pela falta de alimento.

O que devemos fazer:
Em primeiro lugar, manter os gatos em casa. Além de evitarmos que o gato se torne num predador, evitamos reproduções indesejadas e possíveis doenças ou acidentes que o nosso gato possa vir a sofrer. Depois, não devemos abandonar os gatos que não queremos, além de ser desumano, podemos estar a criar um grande problema a outras espécies.
Por fim, não devemos nunca alimentar gatos vadios. Estamos a contribuir para a tal batota no jogo do gato e do rato. É certo que os gatos abandonados nos dão pena, mas se calhar também devemos pensar nos melros, nos pintassilgos e nas toutinegras.

Filipe

Para saber mais:
Crooks & Soulé 1999
Lepkzic et al 2004
Woods et al 2003
Coleman et al 1994
Barratt 1997

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Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

O Bisbis e a conservação da laurissilva

A BirdLife International, a principal ONG mundial ligada ao estudo e conservação das aves, reconheceu o estatuto de espécie ao Bisbis (Regulus madeirensis), uma ave que apenas existe no Arquipélago da Madeira. O Bisbis até agora era considerado uma subespécie de Regulus ignicapillus (a Estrelinha-real) que é uma espécie comum na Europa, incluindo Portugal Continental. O Bisbis distingue-se deste seu congénere através de alguns caracteres morfológicos e de cor da plumagem, mas sobretudo através do seu canto.

Quais são as vantagens deste reconhecimento? Pelo facto de deixar de ser só mais uma população de Estrelinha-real a somar a tantas outras e passar a ser uma espécie endémica de uma região muito restrita abriram-se as portas para a obtenção de mais fundos para a investigação e conservação desta população e contribuiu-se para um aumento do potencial para o turismo ornitológico da região. Tudo isto são aspectos positivos desde que não desviem a atenção, e já agora os fundos, de espécies que estejam mais necessitadas. Mas talvez a principal vantagem do reconhecimento do Bisbis como espécie seja o de criar ainda mais um argumento para a preservação do seu habitat natural: a laurissilva, que é um tipo de habitat típico das ilhas da Macaronésia, com características únicas. A laurissilva, antes da chegada do Homem, ocupava a maior parte do território das ilhas, estando agora confinada a pequenas manchas que são ameaçadas pela invasão de espécies exóticas e pelo seu reduzido tamanho que as torna muito vulneráveis a qualquer perturbação.

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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Duas novas Reservas da Biosfera em Portugal


Após 26 anos só com um sítio na lista de Reservas da Biosfera da UNESCO (o Paúl do Boquilobo figura na lista desde 1981), Portugal inscreve dois novos sítios de uma assentada, as ilhas do Corvo e da Graciosa.

A decisão foi tomada no passado dia 20 de Setembro, durante a reunião anual do Conselho Internacional que coordena o Programa MAB (Man and Biodiversity) da UNESCO. Portugal passa a ter 3 sítios na lista que inclui 529 Reservas em 105 países.

Das inúmeras razões para a atribuição deste estatuto ás duas ilhas o Conselho destaca a diversidade geológica existente nas ilhas (com inúmeros fenómenos de origem vulcânica), a existência diversas espécies endémicas (aves, morcegos, moluscos, artrópodes, etc.) e a excelente integração dos modos de vidas das populações e da Natureza.


José Luís

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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Contrastes


África é um continente de extremos.
Em quase todas as áreas em que pensemos encontramos exemplos das disparidades que existem em África (desde o clima às condições de vida da população) e se ouvirmos qualquer (bom) noticiário com atenção, certamente que descobriremos novos exemplos.
Nas últimas semanas chegaram-nos de África boas e más notícias para a conservação da biodiversidade, curiosamente vindas do mesmo país, a República Democrática do Congo.
Ao mesmo tempo que um grupo de cientistas da Wildlife Conservation Society apresentava os resultados fantásticos de três meses de trabalho de campo na inexplorada floresta de Misotshi-Kabogo, elementos da Conservation International denunciavam a matança de 4 gorilas da montanha no Parque Nacional de Virunga.
Ao trabalharem numa zona anteriormente inacessível devido à instabilidade regional, a equipa da WCS conseguiu descobrir 6 espécies novas para a ciência (uma nova espécie de rato, duas de musaranhos, um morcego novo e duas novas espécies de rãs). A floresta também terá novas espécies de plantas, mas a sua catalogação e descrição demora mais tempo.
A realidade no Parque de Virunga é bem diferente. Nas últimas décadas o parque tem servido de refúgio a vagas sucessivas de refugiados que fogem das inúmeras guerras da região e atrás deles têm chegado forças militares (sobretudo rebeldes) que se têm instalado no parque. Além disso, devido à riqueza do seu subsolo, o parque sofre pressões de vários sectores económicos. Nos últimos sete meses, sete gorilas foram assassinados no parque. No último incidente quatro gorilas da montanha foram mortos de uma só vez, um macho e três fémeas (uma delas grávida). Sabendo que existem apenas 700 indivíduos desta espécie, em termos estatísticos, a perda destes 5 indivíduos é equivalente ao desaparecimento de cerca de 47 milhões de humanos (pouco mais que a população de Espanha).
Estas são só duas histórias de apenas um país de um imenso continente. Conseguem imaginar o quanto ganharia a Humanidade com uma África estável e em Paz? Quantas espécies estão à espera de ser descobertas? Quantos espécies necessitam de ser conservadas?
Bem sei que África parece distante e que a maioria das nossas instituições de ambiente (ONGA, ICNB, empresas, etc.) não têm por hábito intervir em África. No entanto deixo duas sugestões para quem queira ajudar. Em primeiro lugar devemos procurar estar mais informados sobre as realidades africanas (para podermos apontar bons exemplos e denunciar falhas graves). Em segundo lugar, se as instituições de Ambiente portuguesas pouco fazem por África, desafiem-nas para melhorar o seu desempenho ou então apoiem alguma das diversas ONGD (organizações de desenvolvimento e não de caridade) que trabalham com África (contactem a Plataforma Portuguesa das ONGD para saber mais).


P.S. Para terminar com uma nota de esperança, a cria de uma gorilas mortas, um bébé de cinco meses chamado Ndeze, foi salva do massacre pelo seu irmão mais velho e neste momente está a ser tratada num centro de reabilitação. Sei que não devemos comparar atitudes humanas com comportamento animal, mas neste caso dá-me vontade de perguntar quem são as bestas nesta história.

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Enciclopédia da Vida


Imaginem que alguém reunia informação sobre todas as espécies vivas identificadas no planeta num só local. Imaginem as possibilidades de utilização na ciência, na educação, nos media, no estabelecimento de políticas de conservação e de desenvolvimento, etc.. Imaginem o potencial desta ferramenta.
Um grupo de cientistas imaginou, desenhou e começou a prepará-la. Baptizada de "EOL ? Encyclopedia of Life", esta gigantesca base de dados online será o resultado de 10 anos de esforço conjunto de um grupo considerável de cientistas de vários países do mundo e incluirá uma página para cada uma das 1.800.000 espécies que habitam o nosso planeta e que são conhecidas pelo Homem. Cada página terá fotografias, vídeos, sons, mapas interactivos e informação multimédia sobre a espécie em questão.
Há cinco anos atrás a EOL não teria sido possível. Apenas a chegada das modernas tecnologias de compressão, indexação e busca na Internet possibilitaram a concepção desta ferramenta.

Aceda a mais informação em http://www.eol.org/ ou clique aqui para visualizar páginas de demonstração.

Nas palavras do biólogo que lidera o projecto, James Edwards "se isto não criar mais interesse na educação científica, nada criará".

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Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Bons exemplos que vêm dos Açores


As políticas de conservação dos recursos marinhos dos Açores estão entre as mais progressistas e bem sucedidas do mundo. A sua qualidade e reconhecimento público são de tal ordem que têm recebido elogios dos mais variados quadrantes, por exemplo, no ano passado foi a Greenpeace a apontar os Açores como um exemplo a seguir.
Habitualmente tais elogios adormeçem as autoridades, felizmente que neste caso tal não aconteceu. Ontem assistiu-se ao lançamento da mais recente iniciativa açoriana, a REMAx - Rede Experimental de Educação Marinha dos Açores, projecto que decorrerá até 2014 e que representará os Açores na Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. O projecto arrancou em fase experimental nas ilhas do Faial, Pico e São Jorge, mas vai estender-se às restantes ilhas a partir de 2009.
A iniciativa acenta na criação de um modelo de rede social que terá como objectivo motivar o dinamismo de futuras acções de cooperação entre a comunidade científica, os agentes educativos e a sociedade em geral. A partilha de informação, a capacitação e a mobilização participativa da sociedade assegurarão que a conservação da biodiversidade marinha e o desenvolvimento sustentável dos recursos marinhos da Região Autónoma dos Açores serão um objectivo partilhado por todos os açorianos e não apenas por algumas ONG, académicos e departamentos governamentais.
O projecto é financiado pela Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e coordenado pelo Centro do IMAR da Universidade dos Açores.Espero sinceramente que as gentes do Continente e da Madeira estejam a seguir com atenção mais esta lição que vem dos Açores.

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Terça-feira, 19 de Junho de 2007

Roquinho - Ave do ano 2007


Com o objectivo de chamar a atenção para a necessidade de conservação de algumas espécies de aves menos conhecidas, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) escolheu como ave do ano 2007 o Roquinho.

O Roquinho, também conhecido como Paínho da Madeira, Alma-de-mestre ou Roque de Castro (Oceanodroma castro) é uma ave marinha de muito pequeno porte. Embora seja parente (afastado) dos albatrozes, esta ave tem apenas 20 cm de comprimento e 44 cm de envergadura (algumas espécies de albatroz ultrapassam os 3 m). Apesar da sua aparente fragilidade o Roquinho passa quase toda a sua vida no mar, resistindo com aparente facilidade a todas as tempestades. Só na altura da nidificação é que esta ave vem a terra. No caso de Portugal, apenas cria no Arquipélago dos Açores e nos Farilhões (nas Berlengas).

Apesar de resistir a todas as intempéries no mar, o Roquinho está ameaçado em terra. O principal factor de ameaça é a introdução de espécies nas ilhas onde ocorre. Por ter evoluído em ilhas oceânicas, onde não existiam mamíferos predadores de ninhos, o Roquinho é totalmente indefeso perante gatos ou ratazanas que venham pilhar os seus ovos ou crias. Por isso as suas colónias devem ser vigiadas e protegidas.

Para saber mais sobre esta espécie e sobre esta campanha clique aqui.
Filipe

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Terça-feira, 29 de Maio de 2007

Plano Nacional de Conservação da Flora em Perigo

Carriola do EspichelQuando pensamos em espécies ameaçadas quase sempre nos lembramos de animais como o Panda, o Gorila ou as Baleias. Da fauna portuguesa vem-nos à cabeça o Lince, o Lobo ou os Golfinhos do Sado.
Estas são as espécies emblemáticas da conservação da natureza que atraem a atenção dos meios de comunicação social. No entanto, nem todas as espécies em perigo são tão conhecidas.

Em Portugal existem espécies com populações muito reduzidas e que não ocorrem em mais nenhum sítio do mundo, acrescendo a nossa responsabilidade na sua preservação.
São exemplos disso a Corriola do Espichel (na imagem), uma planta que apenas existe na área do Cabo Espichel e no litoral da Arrábida, o Narciso do Mondego, endémico do troço montante da bacia hidrográfica do Mondego, ou a Diabelha de Almograve da qual resta apenas uma pequena população situada na proximidade de Vila Nova de Milfontes.

O Plano Nacional de Conservação da Flora em Perigo é um projecto co-financiado pelo Programa Life da União Europeia e pelo ICN que visa garantir a conservação das espécies de plantas endémicas mais ameaçadas do território continental português, bem como de uma outra espécie que tem uma distribuição mais ampla, mas que é das mais ameaçadas da Europa (o Trevo-de-quatro-folhas).
Filipe

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Terça-feira, 22 de Maio de 2007

Dia Internacional da Biodiversidade


A biodiversidade é a riqueza da vida na Terra e para a entendermos há que olhar para diversos níveis.
1. Olhamos para todas os seres vivos que habitam a Terra. Estamos a falar de milhões de espécies de animais, plantas e microrganismos, desde a baleia azul ou a girafa, até ao piolho; do pinheiro-manso à bactéria que nos causa dores de garganta. Cada uma faz parte da biodiversidade.

2. Olhamos para a rede de relações que se estabelecem entre as várias espécies. Um animal que come uma certa planta, uma planta que é polinizada por uma abelha, um fungo que degrada a abelha depois de morta fazem parte de uma intrincada teia de relações e interdependências que também fazem parte da biodiversidade.

3. Por fim, olhamos para dentro das espécies. Tal como acontece com o ser humano, os indivíduos das várias espécies também são todos diferentes entre si. Essas diferenças resultam, em grande parte, dos seus genes. Esta diversidade genética de todas as espécies faz igualmente parte da biodiversidade.

Hoje comemora-se a adopção (a 22 de Maio de 1992) do texto da Convenção da Diversidade Biológica pela Conferência de Nairobi, tendo esta data sido escolhida pela ONU como o Dia Internacional da Biodiversidade. O tema deste ano é "a biodiversidade e as alterações climáticas".

Filipe

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Terça-feira, 24 de Abril de 2007

Biodiversidade: uma história com final feliz

O que é que acontece quando uma espécie que estava extinta é reintroduzida no seu habitat?
Um dos casos mais bem sucedidos de reintroduções é o do Lobo no Parque de Yellowstone nos Estados Unidos, onde havia sido caçado até à extinção no início do sec XX. É uma história fascinante sobre o funcionamento dos ecossistemas.

Em 1995, 14 Lobos provenientes do Canadá foram introduzidos em Yellowstone. No ano seguinte chegaram mais 17. Os biólogos responsáveis por esta reintrodução esperavam que a mistura de espécies se tornasse mais harmoniosa, esperavam, por exemplo que a população de Veados, demasiado numerosa desde que o seu principal predador se extinguiu, se reduzisse um pouco. No entanto, produziram-se muitos mais resultados que não estavam no programa...

Como previsto, as recém chegadas alcateias começaram a alimentar-se de Veados, a sua presa natural mais abundante no parque, o que teve como efeito não só a redução no seu número, mas também uma alteração no seu comportamento. Antes da chegada dos Lobos, os Veados preferiam pastar junto aos ribeiros pelo meio de matas de Choupos e Salgueiros. No entanto, estas também se tornaram as zonas preferenciais dos Lobos, empurrando os Veados para os prados onde conseguiam detectar as alcateias a maior distância, sentindo-se mais protegidos. Esta alteração comportamental teve como efeito um rejuvenescimento das matas ribeirinhas, cujas plantas jovens eram quase invariavelmente ingeridas pelos Veados.

O rejuvenescimento destas matas permitiu, por sua vez, a recuperação das populações de pássaros que lá habitavam, e que se encontravam em declíneo devido ao envelhecimento do seu habitat.

O afastamento dos Veados das galerias ripícolas causou o regresso de outro habitante desaparecido desta zona do parque desde os anos 50: o Castor. Os Castores necessitam de salgueiros jovens para construir os seus diques e para se alimentarem. Os novos diques criaram pequenos charcos onde cresce vegetação que é essencial para os Ursos-pardos quando acordam da hibernação. Estes charcos juntamente com a maior riqueza da vegetação ribeirinha ajudaram a proteger o próprio leito do rio, desacelerando o seu curso, reduzindo a erosão das margens e possibilitando um maior crescimento de certos peixes como as trutas.

Os Lobos parecem também ter criado um novo mercado de carne a céu aberto em Yellowstone. Muitas vezes, ao abaterem grandes Veados, depois de saciados deixam restos que são aproveitados por outras espécies, especialmente no Inverno, quando a comida escasseia. A lista de comensais destas carcaças é longa: Ursos-pardos, Coiotes, Raposas, Águias-reais, Águias-calvas, Corvos...

Os Lobos demonstraram ser grandes restauradores do meio, corrigindo problemas, que para o Homem seriam extremamente difíceis e dispendiosos. Mas mais importante que isso, os Lobos trouxeram uma lição com eles. Eles ilustram o enorme papel representado pelos predadores de topo no equilíbrio de um ecossistema, sublinhando o que falta em todos os locais onde estes predadores já foram eliminados.
Esperemos que as acções do Lobo em Yellowstone tenham eco por todo o mundo.

Filipe

Para saber mais: Wilmers et al 2003; Laundré et al 2001; Ripple & Larsen 2000; Ripple et al 2001.

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Segunda-feira, 23 de Abril de 2007

Biodiversidade: uma história com final triste


O que é que acontece quando uma espécie se extingue?

Aprendemos que o mundo vivo se organiza em ecossistemas, que incluem não só os seres vivos que os compõem, mas também as relações que estes estabelecem entre si. Logo, quando se extingue uma espécie, é um dos elementos desta teia de interdependências que desaparece. Previsivelmente a extinção vai influenciar, se não todo, pelo menos parte do ecossistema.

A história de que vos quero falar é a da Ave-Elefante, a maior ave que já existiu. Acredita-se que tinha mais de 3 metros de altura e pesava meia tonelada. Os seus ovos chegavam a medir 1 metro, tendo 160 vezes o volume de um ovo de galinha. Esta ave, parente longínquo da avestruz, habitava a ilha de Madagáscar até se extinguir no século XVI. A causa mais provável do seu desaparecimento é a acção do Homem, que terá predado os seus ninhos em busca dos seus enormes e nutritivos ovos.

Os cientistas pensam que a Ave-Elefante se alimentava de frutos que apanhava no solo. Alguns com uma casca muito grossa e rija. O seu sistema digestivo estaria bem adaptado para as digerir.

Esta é talvez a explicação de existirem espécies de árvores na floresta de Madagáscar em que as árvores mais jovens têm mais de 400 anos, altura em que germinaram as suas últimas sementes. Provavelmente sementes de frutos com uma casca tão espessa que necessitavam de passar pelo sistema digestivo de uma ave para poderem germinar.

É difícil prever que efeito terá a extinção anunciada destas árvores das quais dependem certamente muitos outros organismos.

É fácil entender a falta que uma única espécie faz a um ecossistema.


Filipe

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