Os ossos e o clima
Sempre que temos um Inverno mais fresquinho, como este, levantam-se as vozes do costume: "ainda dizem que há aquecimento global". O que se compreende, porque a maioria de nós não possui uma base de dados com as medições dos parâmetros do clima dos últimos 40 anos e se os nossos ossos nos dizem que está um gelo, então isso do aquecimento global deve ser uma invenção. Além disso, quando estamos convictos de uma teoria, tendemos a olhar com mais atenção para os fenómenos que (aparentemente) a apoiam. Mas será que podemos confiar apenas nos nossos ossos para fazer previsões sobre o futuro do clima?Prever o clima é, como todos sabemos, uma tarefa difícil e altamente falível, sobretudo quando nos atrevemos a prevê-lo num intervalo temporal alargado. Mas para isso é que serve a ciência. Para acumular uma grande quantidade de dados que permitem observar os fenómenos de uma maneira menos subjectiva e sobretudo para testar experimentalmente as hipóteses que os procuram explicar.
Nos Estados Unidos, a terra das estatísticas, foi feita uma sondagem a todos os cientistas listados no departamento de geociências do Instituto Geológico Americano com o objectivo de saber a sua opinião sobre as alterações climáticas. Concluiu-se que 90 por cento dos 3.146 inquiridos acreditam que o aquecimento global é real e que 82 por cento concordam que a sua causa é a actividade humana. Se restringirmos a sondagem aos climatologistas a percentagem dos que atribuem ao Homem a causa das alterações climáticas sobe para os 97.
Na minha opinião estes resultados mostram que quanto mais uma pessoa sabe sobre o clima maior é a tendência para concordar que este está a mudar devido à actividade humana.
De todos os cientistas abordados, os mais cépticos são (pasme-se) os geólogos do petróleo, dos quais apenas 47 por cento aceitam uma influência humana no clima. Quanto ao cidadão comum, neste momento já 58 por cento dos americanos acreditam que a actividade humana está a contribuir para o aquecimento global.
Tenho alguma curiosidade de saber quais seriam os resultados de uma sondagem semelhante na população portuguesa. Olhando pela janela e vendo o trânsito infernal que está lá em baixo, quer-me parecer que ainda confiamos mais nos ossos.
Para saber mais: Mongabay
Filipe
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